Uma década depois do colapso de sua petroleira OGX (e consequentemente de sua holding EBX e do posto de um dos mais ricos do mundo), o empresário Eike Batista quer produzir combustível verde. Ele diz estar de volta aos projetos bilionários, mas em versão repaginada, reciclável, ou como ele mesmo diz “green, green, green” e disruptiva.
Estas foram as palavras usadas para apresentar sua nova empreitada: cultivo de uma supercana-de-açúcar para a produção de etanol, combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês) e embalagens biodegradáveis.
Mas não basta deixar para trás o petróleo e a mineração que marcaram o apogeu e derrocada do Grupo X e que levaram e tiraram o nome de Eike da lista dos maiores bilionários do país e do mundo. No ensaio para voltar aos holofotes, ele agora aposta em empreendimento verde e adere ao cripto.
Para financiar seu “unicórnio disruptivo de biotecnologia”, o caminho escolhido foi lançar um token que junta passado e presente. A imagem do criptoativo é o rosto do empresário no centro de um sol, ícone da antiga EBX e agora Batista Group.
O diálogo entre o Eike de ontem e de hoje é visível até no local da apresentação , o restaurante Mr. Lam, no Rio, um dos poucos ativos dos dias de glória do Império X que permaneceram nas mãos do empresário.
Entre rolinhos primaveras e espetinhos de frango empanados, prato que é marca registrada de Eike, o empresário afirmou que pretende levantar US$ 100 milhões, ou 10% do que seria o atual valor do negócio, de US$ 1 bilhão. O criptoativo foi desenvolvido na plataforma de blockchain Solana e o token é lastreado na própria companhia e sua produção.”
O preço da promessa é mais em conta do que os itens do cardápio. Com preço de US$ 1, a previsão, segundo Eike, é de valorização de 63 vezes quando o negócio estiver maduro, o que nas contas dele significa valer US$ 63 bilhões.
Para quem apostar na nova empreitada, o token é lastreado nos ativos da empresa, a EBX Digital Green, sediada nos EUA, e que, pelos planos de expansão, terá subsidiárias com unidades produtivas no país — casando com a política de reindustrialização de Donald Trump —, no Brasil e nos Emirados Árabes, de onde vêm recursos para o projeto.
Eike é o rosto no centro do sol do token, é o apresentador do projeto, mas, na prática, não é sócio da empresa. Depois de protagonizar diversas aberturas de capital na Bolsa de empresas do grupo, Eike viu a maré mudar quando sua petroleira revisou estimativa de reservas para apenas uma fração do previsto inicialmente.
Daí, passo a passo, a crise engoliu o grupo. No ano seguinte a OGX, nome da petroleira à época, entrou em recuperação judicial e arrastou as outras empresas do grupo.
Após idas e vindas, Eike foi denunciado por crimes contra o mercado de capitais, tendo sido condenado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM, órgão regulador do mercado). Acabou pego na Operação Lava-Jato, condenado por corrupção ativa, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro. Teve bens bloqueados, foi preso em duas ocasiões e assinou um acordo de delação premiada.
— Eu tive aí meus problemas — disse Eike. — A empresa quebrou de fora para dentro. Um juiz, por campanha eleitoral, me joga para dentro da Lava-Jato — justificou, enquanto desfiou elogios a empreendimentos que hoje estão em outras mãos.
O empreendedor Eike justificou a captação de recursos via blockchain como forma democrática de levantar dinheiro. O homem que já foi o 7º mais rico do mundo achou por bem contornar o uso de bancos, a quem chamou de “sanguessugas do sistema”.
Desta vez, Eike fez questão de frisar que o projeto da supercana já foi testado:
— Tem que testar, mostrar o que está feito. Já temos o quarto corte de cana, ou seja, quatro anos de cultivo. É o que o meu pai chamaria de “touro testado” — falou em referência a Eliezer Batista, que comandou a Vale.
Na linha “ver para crer”, Eike apresentou embalagens produzidas com bioplástico e passou a conversa segurando um canudo feito do material a partir de biomassa de cana.
Não é a primeira nova ideia aventada por Eike nos últimos anos. Ele já flertou com projetos tão diversos quanto o lançamento de um remédio contra impotência sexual que dissolve embaixo da língua, pasta de dente de base mineral e até mesmo clonagem de gado. Recentemente, passou a compartilhar seus conhecimentos em mentorias para grupos de executivos.
Dinheiro dos Emirados
O diferencial do negócio, diz ele, reside na capacidade da supercana de produzir de duas a três vezes mais etanol e de sete a 12 vezes mais biomassa que a cana tradicional. Com a escala, a produtividade cresce e o custo cai, ganhando competitividade para avançar em direção à produção de SAF e como opção ao plástico usado em embalagens.
Haverá módulos de produção no Norte Fluminense, começando por Quissamã. Em um lote de 70 mil hectares, estima o plano de negócios, é possível produzir 12 milhões de toneladas de supercana por ano.
Todos os números do empreendimento são grandiosos. O caldo de cana produzido no lote será destinado a três usinas de etanol, que poderiam fabricar 1 bilhão de litros por ano e 537,6 milhões de litros de SAF.
A Honeywell, de serviços e produtos para o setor de petróleo, foi anunciada como parceira. Procurada, a empresa não confirmou a participação até o fechamento desta edição.
Já o bagaço da cana seria usado para produzir perto de 980 mil toneladas de embalagens biodegradáveis, a exemplo do canudo exibido por Eike e hamburgueiras e recipientes para apoiar copos.
Perguntado se conversou com a Petrobras sobre a supercana, Eike disse que não, “sempre dá encrenca (risos)”.
— Deus não quis que eu mexesse com petróleo. Então, estou aqui: green, green, green… — brincou.
O negócio não para por aí. Eike levantou US$ 500 milhões com Mário Garnero, da Brasilinvest, com recursos de um fundo de infraestrutura custeado pelo Abu Dhabi Investment Group (Adig), dos Emirados Árabes. Mais uma vez o empresário recorreu ao país como fonte de recursos para seus empreendimentos.
Garnero, que não participou do evento por questões de saúde, mas enviou vídeo confirmando os recursos, terá 40% da empresa, enquanto os outros 60% estão nas mãos do administrador Luis Rubio e do agrônomo Sizuo Matsuoka, originalmente à frente do projeto de melhoramento genético da cana-de açúcar. Desde 2011, botaram R$ 350 milhões no negócio.
Eike não tem ações, mas pode ganhar se o negócio for bem-sucedido.
— Tenho direitos de subscrição de ações da companhia sujeitos a performance — explicou o empresário.